Quando uma parte de nós deixa de ser vivida: o “resgate da alma” em diálogo com Wilfred Bion
- Silvana Souza Silva

- há 10 horas
- 7 min de leitura

Há pessoas que chegam à análise dizendo que, depois de determinado acontecimento, nunca mais voltaram a ser as mesmas. Continuam trabalhando, cuidando da família e cumprindo as tarefas cotidianas, mas sentem que algo essencial ficou para trás.
Algumas falam de vazio ou perda de vitalidade. Outras descrevem uma vida realizada mecanicamente. Há também quem consiga narrar perfeitamente o que viveu, mas sem se sentir emocionalmente ligado à própria história: sabe contar o que aconteceu, porém não consegue sentir que aquela experiência realmente lhe pertence.
Em O resgate da alma, Sandra Ingerman aborda estados semelhantes a partir da tradição xamânica. Segundo essa compreensão, diante de acontecimentos traumáticos, perdas ou situações emocionalmente insuportáveis, uma parte da alma poderia afastar-se como forma de proteção. O resgate da alma seria um trabalho ritual destinado a recuperar aquilo que se perdeu, restabelecendo a vitalidade e a ligação da pessoa com a própria vida.
Essa concepção pertence a um campo espiritual específico e não corresponde a um conceito psicanalítico. Wilfred Bion não afirma que uma alma abandone o indivíduo, tampouco propõe que o analista recupere uma essência perdida do paciente.
Ainda assim, sua psicanálise oferece elementos importantes para compreendermos o que pode estar em jogo quando alguém sente que perdeu uma parte de si.
A aproximação entre Ingerman e Bion não está, portanto, em considerar suas ideias equivalentes. Está na possibilidade de colocar duas linguagens diferentes diante de uma experiência humana comum: o que acontece quando algo vivido foi tão intenso que não pôde ser integrado à continuidade psíquica?
A psicanálise pode falar em alma?
A palavra “alma” não é completamente estranha à psicanálise. Freud empregava o termo alemão Seele, que pode ser traduzido como alma, psique ou vida anímica.
No alemão utilizado por Freud, entretanto, Seele não designa necessariamente uma substância espiritual ou imortal separada do corpo. A palavra pode se referir ao conjunto da vida psíquica, reunindo pensamento, afetividade, desejo e vitalidade.
Em um texto de 1890, Freud chegou a definir o tratamento psíquico como um “tratamento da alma” realizado principalmente por meio da palavra. Posteriormente, algumas traduções de sua obra privilegiaram termos como “mente” e “psiquismo”, contribuindo para o desaparecimento da palavra “alma” do vocabulário psicanalítico mais corrente.
Isso não significa atribuir à psicanálise uma concepção religiosa da alma. Significa reconhecer que a palavra pode ser empregada, desde que seu sentido seja claramente delimitado.
Aqui, “alma” não será compreendida como uma entidade independente do corpo, mas como uma imagem capaz de reunir a vida afetiva, a vitalidade, o sentimento de continuidade e a experiência de ser alguém.
Quando uma experiência não pode ser pensada
Para Bion, o psiquismo não nasce preparado para pensar tudo o que vive. Antes de existirem pensamentos organizados, há sensações corporais, impressões sensoriais e emoções ainda sem nome. Essas experiências precisam ser acolhidas e transformadas para que possam se tornar sonhos, imagens, lembranças e pensamentos.
Bion denomina função alfa a capacidade de realizar essa transformação. Quando ela ocorre, o vivido pode ser sonhado, pensado e incorporado à história da pessoa. Quando essa função falha ou é sobrecarregada, a experiência não desaparece, mas permanece em estado bruto.
Nesse estado, ela pode ser descarregada no corpo, projetada em outra pessoa ou repetida nas relações, sem que seu significado emocional possa ser reconhecido.
Bion também desenvolve a relação continente–contido. Inicialmente, o bebê necessita de uma mente capaz de receber suas angústias intoleráveis, transformá-las e devolvê-las de uma forma mais suportável. Essa capacidade de continência poderá ser gradualmente internalizada.
Entretanto, algumas experiências ultrapassam os recursos psíquicos disponíveis. O acontecimento é vivido, mas não encontra condições para ser emocionalmente elaborado.
É nesse ponto que a concepção de Ingerman pode dialogar com Bion.
Aquilo que aparece, na linguagem xamânica, como uma parte da alma que se afastou pode ser compreendido, pelo vértice psicanalítico, como uma dimensão da experiência que não encontrou condições para ser acolhida, sonhada e transformada.
Não diríamos, com Bion, que a alma literalmente deixou a pessoa. Diríamos que algo aconteceu, mas ainda não adquiriu uma forma psíquica que permita reconhecê-lo como parte de sua história.
A pessoa sobreviveu ao acontecimento, mas uma dimensão de sua experiência permaneceu sem ligação com o restante de si.
Sobreviver não significa permanecer inteiro
Na compreensão apresentada por Ingerman, o afastamento de uma parte da alma possui inicialmente uma função protetora. Algo se retira diante do insuportável para que a pessoa possa sobreviver.
Na psicanálise bioniana, podemos pensar que, quando a dor ultrapassa a capacidade de continência, o psiquismo recorre a formas primitivas de defesa. Partes da experiência podem ser cindidas e afastadas, e as ligações entre sensação, emoção e pensamento podem ser interrompidas.
Embora partam de tradições muito diferentes, as duas perspectivas permitem reconhecer algo importante: sobreviver a um acontecimento não significa necessariamente permanecer inteiro.
Uma defesa que protegeu a pessoa em determinado momento pode, posteriormente, manifestar-se como vazio, isolamento, repetição ou perda de vitalidade.
A diferença entre as duas concepções, entretanto, precisa ser preservada. Ingerman apresenta um caminho ritual de busca e retorno. A clínica bioniana procura construir condições para que aquilo que não pôde ser pensado encontre, talvez pela primeira vez, uma relação capaz de recebê-lo.
O trabalho analítico não consiste em encontrar uma parte escondida nem em devolver ao paciente algo que o analista possuiria. Trata-se de sustentar um encontro no qual sensações dispersas, emoções sem nome e angústias sem contorno possam adquirir alguma forma.
Como isso aparece na clínica?
A sensação de ter perdido uma parte de si pode aparecer de diferentes maneiras:
sentimento persistente de vazio ou desvitalização;
impressão de viver mecanicamente;
dificuldade de sentir prazer, desejo ou interesse pela vida;
sensação de não ser mais a mesma pessoa depois de um trauma ou de uma perda;
estados corporais intensos que não encontram palavras;
relato organizado dos acontecimentos, mas desconectado da emoção;
repetição de relações e situações cujo sentido permanece inacessível;
experiências de estranhamento ou desenraizamento de si.
Na perspectiva de Bion, o analista não deve se apressar em traduzir esses fenômenos ou encaixá-los em uma explicação pronta. Sua tarefa é oferecer continência: receber aquilo que o paciente ainda não consegue suportar sozinho, tolerar a incerteza e aguardar até que algum sentido possa nascer da experiência compartilhada.
Isso exige uma postura que Bion descreve como estar sem memória e sem desejo. Não significa apagar os conhecimentos do analista ou torná-lo indiferente. Significa não aprisionar o encontro ao que ele já sabe, nem conduzir o paciente a um resultado previamente imaginado.
Em certos momentos, o que se transforma na análise não é uma lembrança específica, mas a própria capacidade de sentir e pensar.
O paciente pode começar a reconhecer uma tristeza antes experimentada somente como cansaço; perceber como raiva aquilo que surgia no corpo como tensão; permitir-se desejar; ou descobrir palavras para uma angústia que até então só podia ser vivida como vazio.
O resgate como transformação
A imagem do resgate pode ser clinicamente fecunda, desde que não transforme o analista em alguém que conhece a forma verdadeira ou completa do paciente.
O trabalho analítico não devolve uma identidade original, pura e intacta. Ele cria condições para que aspectos interrompidos da experiência possam ser sonhados, pensados e incorporados de uma maneira nova.
Nesse sentido, o “resgate” pode ser compreendido psicanaliticamente como uma retomada da capacidade de estabelecer ligações: entre corpo e palavra, sensação e emoção, passado e presente, experiência e pensamento.
Não se recupera simplesmente o que existia antes da ruptura. Produz-se uma nova possibilidade de relação consigo mesmo e com a realidade.
Essa é uma diferença importante entre recuperar e transformar. Recuperar poderia sugerir que existe uma parte intacta esperando para ser devolvida. Transformar significa reconhecer que o sofrimento modifica o sujeito e que a análise não apaga o acontecido. Ela pode, entretanto, favorecer formas de viver que não permaneçam inteiramente determinadas por aquilo que aconteceu.
O desconhecido da experiência
Na parte mais tardia de sua obra, Bion aproxima o trabalho psicanalítico de certas atitudes encontradas na experiência mística. Isso não significa transformar a psicanálise em religião.
A experiência dos místicos funciona para ele como um modelo de abertura ao desconhecido, ao indizível e àquilo que não pode ser completamente apreendido por conceitos.
Bion utiliza o símbolo O para se referir à realidade última e incognoscível da experiência. O não significa alma, Deus ou espírito. É um termo deliberadamente aberto, que aponta para uma realidade que não pode ser possuída como conhecimento.
Na clínica, essa formulação impede que o analista acredite possuir a verdade definitiva sobre o paciente. Alguma coisa da experiência humana sempre ultrapassará nossas teorias e interpretações.
Esse aspecto amplia o diálogo com Ingerman. A expressão “resgate da alma” procura nomear algo essencial que parece ter sido perdido. Bion nos ajuda a pensar que esse “essencial” não precisa ser definido antecipadamente. Ele pode surgir no encontro analítico como uma verdade emocional que ainda não encontrou condições para ser vivida.
Uma aproximação possível
Ingerman e Bion pertencem a tradições diferentes e não devem ser confundidos. A primeira trabalha no campo xamânico e espiritual, no qual uma parte da alma pode se afastar e ser ritualmente recuperada. O segundo investiga, no campo psicanalítico, como as experiências emocionais se tornam — ou deixam de se tornar — pensáveis.
Apesar dessa distância, ambos permitem reconhecer que determinados acontecimentos podem romper a continuidade da experiência de ser.
Aquilo que Ingerman descreve como recuperação de uma parte perdida pode ser pensado, na clínica bioniana, como a criação de condições para que uma experiência que ainda não pôde ser sentida, sonhada e pensada adquira existência psíquica.
Não seria propriamente a alma que retorna. Retorna — ou talvez nasça pela primeira vez — a possibilidade de sentir-se real, reconhecer como próprias experiências antes insuportáveis e estabelecer ligações entre partes da vida que permaneceram separadas.
A análise não promete restaurar uma totalidade ideal. Pode, contudo, oferecer uma relação na qual aquilo que aparecia apenas como vazio, sintoma ou repetição encontre transformação.
O que emerge desse processo não é a pessoa que existia antes da ruptura, mas uma nova possibilidade de continuidade de si.
Referências
BION, Wilfred R. Aprender com a experiência. Rio de Janeiro: Imago. Trabalho original publicado em 1962.
BION, Wilfred R. As transformações. Rio de Janeiro: Imago, 1991. Trabalho original publicado em 1965.
BION, Wilfred R. Atenção e interpretação. Rio de Janeiro: Imago, 1973. Trabalho original publicado em 1970.
FRANCO FILHO, Odilon de Mello. A experiência dos místicos e a do psicanalista sob o vértice de Bion. Revista Brasileira de Psicanálise, v. 57, n. 3, p. 95–113, 2023.
FREUD, Sigmund. Tratamento psíquico (tratamento da alma). Trabalho original publicado em 1890.
INGERMAN, Sandra. Soul Retrieval: Mending the Fragmented Self. San Francisco: HarperSanFrancisco, 1991. Publicado em português com o título O resgate da alma.
MONTAGNA, Plinio. Alma migrante. Revista USP, São Paulo, n. 114, p. 109–118, 2017.
REINER, Annie. O místico: intuição, verdade e beleza. Revista Brasileira de Psicanálise, v. 55, n. 2, p. 27–38, 2021.



Comentários