Quando nem a análise sustenta: uma leitura psicanalítica de “Se Eu Tivesse Pernas, Te Chutaria” a partir de Bion
- Silvana Souza Silva

- há 1 dia
- 3 min de leitura

Há filmes que narram histórias. Outros, no entanto, expõem estados psíquicos.
Se Eu Tivesse Pernas, Te Chutaria pertence a essa segunda categoria. Não se trata apenas de uma narrativa sobre relações tensionadas, mas de uma experiência que coloca o espectador diante de algo mais incômodo: a dificuldade de transformar o vivido em pensamento.
O elemento que intensifica essa tensão é o fato de a personagem principal ser terapeuta alguém que, em tese, opera no campo da escuta e da elaboração. Ainda assim, o que se apresenta ao longo do filme é a falha dessas mesmas funções.
Não por ausência de saber, mas por algo que parece excedê-lo.
Quando a experiência não encontra forma
A partir do vértice de Wilfred Bion, é possível compreender que a experiência emocional, antes de se tornar pensamento, surge como impacto algo que precisa ser transformado para adquirir forma psíquica.
No filme, o que se observa é justamente a insistência de uma experiência que não se deixa transformar.
Não se trata apenas de emoções intensas, mas de algo que permanece em estado bruto:
irritações que não se organizam
falas que não produzem ligação
reações que não encontram elaboração
A experiência circula, mas não se fixa como pensamento.
O limite do saber e da análise
A presença de uma terapeuta como protagonista desloca a leitura para um ponto sensível:o saber não garante a transformação.
A análise, nesse contexto, não aparece como espaço plenamente operativo, mas como um campo que também encontra seus limites.
Isso não implica uma falência da psicanálise, mas evidencia algo estrutural:há momentos em que a experiência emocional excede a capacidade de simbolização mesmo quando há recursos psíquicos disponíveis.
A personagem fala, reflete, se implica mas algo não se organiza internamente.
Como se a experiência não pudesse ser suficientemente metabolizada para se tornar pensável.
Falha de continência: quando o outro não sustenta
Em Bion, o conceito de continente-conteúdo descreve a possibilidade de que um outro receba e transforme aquilo que o sujeito não consegue elaborar sozinho.
No entanto, no filme, essa função aparece fragilizada.
Os vínculos não operam como continentes. Ao contrário, tornam-se espaços de intensificação.
A experiência emocional:
é projetada
não encontra transformação
retorna ao sujeito ainda mais carregada
O que se estabelece não é um circuito de elaboração, mas de desgaste.
Ataque ao vínculo, ataque ao pensar
Há, ao longo do filme, uma série de movimentos que podem ser lidos como aquilo que Bion nomeia como ataque ao elo de ligação.
Não se trata apenas de conflito interpessoal, mas de algo mais radical:
a dificuldade de sustentar o vínculo como espaço de pensamento
a transformação do outro em alvo, e não em continente
a interrupção da possibilidade de ligação entre emoção e linguagem
Nesse cenário, o vínculo deixa de ser um lugar de transformação e passa a ser o local onde o excesso é descarregado.
Mente sob pressão: o colapso do tempo psíquico
O funcionamento apresentado aproxima-se do que Bion descreve como uma mente sob pressão, na qual a tolerância à frustração se encontra reduzida.
Pensar exige tempo.Transformar a experiência exige espera.
No entanto, quando a pressão emocional se intensifica:
o tempo psíquico encurta
a experiência invade
e a descarga substitui a elaboração
Não se trata de ausência de capacidade, mas de um estado em que essa capacidade não se sustenta.
Entre clínica e limite
Talvez o ponto mais delicado do filme resida justamente nessa constatação:nem mesmo a análise garante, de forma contínua, a transformação da experiência emocional.
A personagem não está fora do campo analítico ela está dentro dele.E ainda assim, enfrenta seus limites.
Isso desloca qualquer idealização da clínica e a reposiciona como um campo atravessado por:
falhas
interrupções
momentos de não elaboração
Não como exceção, mas como parte da própria condição psíquica.
Considerações finais
Se Eu Tivesse Pernas, Te Chutaria não oferece resolução.
Ele insiste em mostrar algo que, muitas vezes, se tenta evitar:há experiências que não se deixam pensar ao menos não imediatamente.
E nesses momentos:
o vínculo pode não sustentar
o pensamento pode falhar
e o sujeito pode se ver tomado por aquilo que não consegue transformar
Não como fracasso, mas como limite.
Porque, em última instância, pensar não é um estado garantido é um processo que pode, sob determinadas condições, se romper.
Reflexões de Silvana Souza Silva - psicanalista




Comentários