Entre a solidão e o ritual: reflexões sobre a morte após A Morte de Ivan Ilitch e o encontro com a cosmologia Yanomami
- Silvana Souza Silva

- há 1 dia
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Publicada em 1886, a novela A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, permanece profundamente atual ao abordar o confronto humano com a finitude, a solidão emocional e a pergunta silenciosa sobre a autenticidade da própria existência.
Algumas leituras não apenas informam — elas deslocam.
Ao terminar essa obra, permaneci com a sensação de ter acompanhado não apenas a morte de um personagem, mas o lento desvelamento de uma vida vivida sob o peso da adequação, da correção e de uma certa distância de si.
A morte de Ivan não me atravessou como evento dramático, mas como inquietação silenciosa:quantas vezes a vida pode ir se esvaziando sem que percebamos?
Dias depois, ao assistir a um documentário que apresenta a experiência e a cosmologia do povo Yanomami, fui tocada por uma percepção diferente da morte — não menos dolorosa, mas profundamente distinta em sua forma de ser vivida e simbolizada.
O contraste entre essas experiências produziu em mim uma reflexão que ainda permanece aberta.
A morte silenciosa de uma vida correta
Ao ler Tolstói, o que mais me impactou não foi a dor física de Ivan Ilitch, mas sua solidão emocional.
A morte surge como ruptura de uma vida socialmente bem organizada, mas afetivamente distante.As pessoas ao redor evitam o tema, sustentam a normalidade e, sem perceber, intensificam o isolamento daquele que está morrendo.
A sensação que permaneceu em mim foi a de uma morte vivida em silêncio — uma travessia íntima, marcada pela dificuldade de compartilhar a verdade do que se sente.
A lentidão do morrer expõe perguntas que a rapidez da vida havia permitido evitar.
E talvez seja essa a dor mais profunda: perceber, tardiamente, a necessidade de ter vivido com mais presença.
O encontro com o ritual e a continuidade da vida
Ao entrar em contato com a experiência Yanomami, especialmente com os rituais funerários apresentados no documentário, algo em mim se deslocou.
A morte ali não aparece como evento isolado do indivíduo, mas como acontecimento que mobiliza o coletivo, a memória e a relação com os ancestrais.
O ritual funerário — compreendido como ritual de passagem — não nega a dor da perda.Ao contrário, cria um espaço para que ela seja partilhada, simbolizada e integrada à continuidade da vida do grupo.
O gesto de transformar os restos do corpo e integrá-los ao alimento ritual, partilhado entre os vivos, me tocou profundamente.
Não como algo estranho, mas como expressão de uma verdade relacional: a impossibilidade de separar completamente aqueles que se amam.
A morte não rompe o vínculo — ela o transforma.
Entre solidão e pertencimento
A comparação entre essas experiências não produziu em mim uma resposta simples, mas uma pergunta delicada.
Na narrativa de Ivan Ilitch, a morte intensifica a solidão.Na experiência Yanomami, ela convoca proximidade.
Enquanto uma cultura tende a afastar a morte do cotidiano, outra a inclui como parte do ciclo da existência e da vida comunitária.
Percebi que a diferença talvez não esteja na intensidade da dor, mas na possibilidade de sustentá-la com outros.
O sofrimento não desaparece quando é compartilhado, mas torna-se mais humano.
A urgência de viver que emerge dessas experiências
O que ficou em mim após esse encontro entre literatura e experiência indígena foi uma sensação de urgência — não a urgência ansiosa de fazer mais, mas a urgência de viver com maior presença emocional.
A morte de Ivan Ilitch me fez pensar na rapidez com que a vida pode ser atravessada sem verdadeira intimidade consigo.A experiência Yanomami me fez pensar na importância dos vínculos e dos rituais que sustentam a continuidade do pertencimento mesmo diante da perda.
Entre essas duas perspectivas, emergiu uma reflexão simples e profunda:
talvez a forma como morreremos esteja profundamente ligada à maneira como aprendemos a viver nossas relações, nossas perdas e nossa vulnerabilidade.
Uma reflexão que permanece
Não saí dessas experiências com conclusões, mas com uma ampliação de escuta.
Pensar a morte deixou de ser apenas pensar o fim.Passou a ser pensar presença, vínculo, memória e a possibilidade de reconhecer a finitude sem precisar vivê-la em completo isolamento.
Entre a morte solitária de uma vida correta e a morte ritualizada de uma vida compartilhada, permanece em mim a pergunta sobre como podemos, em nossa contemporaneidade, criar espaços mais humanos para viver, sofrer, perder e lembrar.
Talvez refletir sobre a morte seja, silenciosamente, uma forma de proteger a vida de se tornar apenas passagem apressada pelo tempo.
Silvana Souza Silva - Psicanalistaa




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