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Quando a experiência é intensa demais: ayahuasca e o que a psicanálise pode dizer.

  • Foto do escritor: Silvana Souza Silva
    Silvana Souza Silva
  • há 1 dia
  • 2 min de leitura

Há experiências que não cabem nas palavras.

Algumas pessoas relatam que, ao vivenciarem estados ampliados de consciência — como ocorre com a ayahuasca imagens surgem com força, memórias antigas reaparecem, emoções esquecidas ganham corpo. Algo se abre. Algo se desloca.

Muitas vezes, a sensação é de ter acessado algo “muito profundo”.

Mas o que significa, do ponto de vista psíquico, viver uma experiência intensa assim?

A psicanálise não parte da ideia de revelação, nem de iluminação súbita. Ela parte da noção de que a mente humana é composta por camadas algumas conscientes, outras não. O inconsciente não é um lugar misterioso fora de nós. É parte da nossa própria vida emocional, que nem sempre conseguimos perceber.

Em certas circunstâncias, as defesas que organizam nossa vida psíquica podem se flexibilizar. Emoções antigas, conflitos não resolvidos, medos, culpas e desejos podem emergir com mais intensidade.

Isso pode produzir duas experiências muito diferentes.

Para alguns, a vivência é sentida como ampliação, conexão, insight.Para outros, pode ser desorganização, angústia ou confusão.

A diferença não está apenas na substância ou no ritual. Está na estrutura psíquica de quem vive a experiência.

Wilfred Bion, psicanalista britânico, descreveu que nossa mente precisa transformar emoções brutas em pensamento. Quando isso não acontece, ficamos tomados por sensações que não sabemos nomear. Ele chamou essas experiências de “elementos beta” vivências intensas, mas ainda não digeridas pela mente.

A questão central não é o que aparece durante a experiência.É o que conseguimos fazer com isso depois.

Sem trabalho de elaboração, aquilo que foi vivido pode permanecer como impacto, mas não se transforma em compreensão. Pode virar fascínio. Pode virar repetição. Pode virar tentativa de reviver o estado intenso.

A psicanálise não nega a profundidade dessas experiências. Mas lembra que intensidade não é sinônimo de transformação.

Transformação exige simbolização.Exige tempo.Exige tolerância ao não saber.

Muitas pessoas buscam experiências ampliadas como forma de resolver sofrimentos antigos. No entanto, o sofrimento psíquico não desaparece porque foi visto em forma de imagem ou emoção forte. Ele precisa ser integrado.

Isso significa reconhecer que o inconsciente não é um território a ser conquistado, mas uma dimensão da nossa própria história emocional.

A experiência pode abrir uma porta.Mas atravessar essa porta exige recursos internos.

A pergunta não é se houve uma revelação.A pergunta é: há espaço psíquico para metabolizar o que foi revelado?

A psicanálise oferece algo diferente da promessa de iluminação.Ela oferece um lugar onde o vivido pode ser pensado.

E, às vezes, pensar é profundamente transformador especialmente quando pode acompanhar o sentir intenso e permitir que a experiência se torne integração.

Silvana Souza Silva - psicanalista

 
 
 

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