Envelhecer entre perdas e pensamento: Freud e Bion em diálogo
- Silvana Souza Silva

- 13 de jan.
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Envelhecer não é apenas atravessar o tempo. É ser atravessado por ele. Algo do corpo já não responde como antes, os projetos se reorganizam, os vínculos se transformam, e a ideia da morte — antes distante — começa a ganhar contornos mais concretos. A psicanálise, desde seus primórdios, tentou se aproximar desse território, ainda que nem sempre tenha encontrado palavras suficientes para nomeá-lo.
Na obra de Sigmund Freud, o envelhecimento aparece sobretudo ligado à experiência da perda. À medida que a base biológica da libido se enfraquece, os investimentos nos objetos externos tendem a diminuir. O mundo, antes habitado por desejos, projetos e relações, parece encolher. O interesse por novos vínculos se reduz, e a libido se recolhe em direção ao Eu. Freud descreve esse movimento como uma regressão ao narcisismo primário, com a retomada de posições mais arcaicas da vida pulsional. Não se trata apenas de uma mudança quantitativa, mas de uma reorganização profunda do modo como o sujeito se relaciona consigo mesmo e com o mundo.
No entanto, em Freud, esse processo é pensado principalmente em termos econômicos: para onde vai a libido quando os objetos se perdem? O envelhecer aparece menos como uma experiência emocional a ser simbolizada e mais como um destino inevitável da economia pulsional. A morte, nesse contexto, permanece como um ponto cego: algo que o inconsciente não reconhece plenamente, ainda que seus efeitos se façam sentir de maneira insistente.
É nesse silêncio que a contribuição de Wilfred Bion se torna particularmente fecunda. Ao deslocar o foco da psicanálise para a capacidade de pensar a experiência emocional, Bion permite que o envelhecimento seja compreendido não apenas como regressão, mas como um tempo de intensificação psíquica. O que se perde em termos de expansão externa pode retornar como exigência interna: perdas, limites e a proximidade da finitude produzem experiências emocionais que ainda não encontram forma, palavra ou representação.
Nesse sentido, o recolhimento que Freud descreve como regressivo pode ser lido, à luz de Bion, como uma tentativa da mente de se aproximar de experiências que escapam ao pensamento habitual. Há algo no envelhecer que confronta o sujeito com o desconhecido — com aquilo que Bion chamou de O, a realidade última, irrepresentável, que não se deixa domesticar pela razão. Sustentar esse contato exige uma capacidade particular: tolerar o não saber, a frustração e a ausência de garantias.
Quando essa capacidade falha, o envelhecimento pode se tornar um campo de sofrimento intenso. A perda do corpo conhecido, a redução das possibilidades futuras, o medo de adoecer, a consciência mais nítida da morte e o afastamento progressivo da contemporaneidade podem desencadear retraimentos, endurecimentos do pensamento ou formas silenciosas de desespero. O mundo passa a ser vivido como hostil, persecutório ou excessivamente empobrecido.
Mas quando a mente consegue trabalhar essas experiências, algo diferente pode acontecer. O envelhecer pode se transformar em um tempo de elaboração — não no sentido de resignação idealizada, mas de um contato mais direto com a própria condição humana. Elaborar perdas, fazer luto por aquilo que não será vivido, aceitar limites sem colapsar são movimentos psíquicos complexos, que exigem uma função de pensar suficientemente viva.
Nesse ponto, as contribuições de Melanie Klein ajudam a compreender como o envelhecimento reativa antigas posições emocionais. A posição depressiva, longe de ser um estado patológico, representa a capacidade de reconhecer a ambivalência, integrar amor e ódio e sustentar a perda sem destruir os vínculos internos. Envelhecer pode significar, justamente, retomar esse trabalho: aceitar que a vida não será completa, perfeita ou infinita — e ainda assim permanecer ligado ao mundo e aos objetos internos.
Talvez o envelhecimento seja, então, menos um declínio e mais uma prova. Uma prova da capacidade de pensar quando já não há promessas fáceis, da capacidade de amar quando o tempo é limitado, da capacidade de fazer luto sem perder o desejo de viver. Entre Freud e Bion, abre-se um campo fértil para pensar a velhice não apenas como regressão ou empobrecimento, mas como um momento crítico da vida psíquica — onde o pensamento pode se aprofundar ou se fechar, dependendo da possibilidade de sustentar o encontro com a finitude.
Silvana Souza SilvaPsicanalista | Mestre em Ciência da Religião (PUC-SP)
Este texto integra uma série de reflexões sobre psicanálise, envelhecimento e experiência emocional.




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