Cura Simbólica: Por Que o Corpo Também Precisa Ser Escutado
- Silvana Souza Silva

- há 5 dias
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Do ponto de vista psicanalítico, o corpo não é apenas biológico: ele é também campo de inscrição da experiência emocional. Quando afetos não encontram vias simbólicas de elaboração, o corpo pode tornar-se o lugar onde o sofrimento se manifesta. Não como escolha consciente, mas como recurso possível quando a palavra falha.
Essa compreensão dialoga com reflexões de Donald Winnicott, ao indicar que estados de adoecimento podem surgir quando o sujeito vive excessivamente adaptado às demandas externas, afastado de sua experiência subjetiva mais espontânea. O corpo, nesse contexto, torna-se depositário de um mal-estar que não encontrou outro destino.
No campo histórico e cultural, a filósofa feminista Silvia Federici, em sua obra Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva, mostra como os saberes femininos ligados ao cuidado, ao corpo e à cura foram progressivamente deslegitimados, perseguidos e medicalizados ao longo da modernidade. Práticas como rezas, benzimentos, rituais de cuidado e escuta do corpo foram retiradas do campo do saber legítimo e relegadas ao silêncio ou à superstição.
Embora Federici não escreva a partir da psicanálise, sua leitura encontra ressonância em reflexões atuais sobre sofrimento, gênero e corpo, amplamente presentes em debates contemporâneos sobre saúde mental, burnout feminino, exaustão emocional e adoecimentos psicossomáticos. Em muitas dessas leituras, observa-se — ainda que de forma implícita — a compreensão de que o corpo carrega histórias, afetos e conflitos que não puderam ser simbolizados de outra forma.
Historicamente, como aponta Mircea Eliade, os rituais de cuidado funcionaram como dispositivos simbólicos capazes de organizar o sofrimento, especialmente em contextos de perda, luto e crise. Esses rituais não eliminavam a dor, mas ofereciam contornos, sentido e compartilhamento.
Pensar a cura simbólica hoje não significa opor práticas tradicionais ao cuidado médico ou psicológico, mas reconhecer que o sofrimento humano pode exigir múltiplas linguagens de elaboração. Escutar o corpo, nesse sentido, é escutar uma narrativa que ainda não encontrou palavras — mas que insiste em ser reconhecida.
Silvana Souza SIlva - psicanalista




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