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Cabeça de Santo (Socorro Acioli): uma leitura psicanalítica sobre escuta, vazio e subjetividade

  • Foto do escritor: Silvana Souza Silva
    Silvana Souza Silva
  • há 12 minutos
  • 3 min de leitura
Cabeça de Santo, romance de Socorro Acioli, é uma obra da literatura brasileira contemporânea que permite uma leitura psicanalítica rica e atual. Ambientado no sertão nordestino, o livro aborda temas como abandono, silêncio, religiosidade popular e a construção da subjetividade a partir da escuta.
Cabeça de Santo, romance de Socorro Acioli, é uma obra da literatura brasileira contemporânea que permite uma leitura psicanalítica rica e atual. Ambientado no sertão nordestino, o livro aborda temas como abandono, silêncio, religiosidade popular e a construção da subjetividade a partir da escuta.

Neste artigo, propomos uma leitura psicanalítica do livro Cabeça de Santo, explorando como o vazio, o sagrado e a palavra do outro participam da constituição psíquica do sujeito.

 Sobre o livro Cabeça de Santo

O romance Cabeça de Santo narra a trajetória de Samuel, um jovem órfão que percorre o sertão até encontrar abrigo dentro da cabeça oca de uma estátua de santo inacabada. A partir desse espaço improvável, Samuel passa a ouvir as rezas, pedidos e confissões dos moradores da cidade, que acreditam que o santo está se manifestando.

A narrativa mistura religiosidade popular, realismo mágico e crítica social, criando um campo simbólico fértil para interpretações psicanalíticas.

O vazio como conceito psicanalítico

Na psicanálise contemporânea, o vazio não é apenas ausência, mas uma condição psíquica estruturante. Samuel é um sujeito marcado por rupturas precoces, desenraizamento e falhas nos vínculos primários — características frequentes na clínica atual.

A cabeça vazia do santo pode ser compreendida como uma metáfora do espaço psíquico: um lugar ainda não colonizado por significações rígidas, capaz de acolher experiências emocionais. Diferente de um vazio mortífero, trata-se aqui de um vazio fértil, que permite inscrição simbólica.

Escuta, transferência e religiosidade popular

Um dos eixos centrais do livro é a escuta. Samuel não fala, não interpreta e não responde — ele escuta. Essa posição remete diretamente à função analítica de acolher sem invadir.

Os moradores projetam no santo seus sofrimentos, desejos e angústias. Do ponto de vista psicanalítico, esse movimento pode ser lido como um fenômeno transferencial coletivo, no qual o sagrado funciona como suporte simbólico para aquilo que não encontra lugar na linguagem cotidiana.

A religiosidade popular, nesse contexto, não aparece como dogma, mas como linguagem psíquica: uma forma de simbolizar perdas, medos e esperanças.

A constituição do sujeito pela palavra do outro

Na psicanálise, o sujeito se constitui na relação com o outro. Em Cabeça de Santo, Samuel começa a existir subjetivamente ao ser atravessado pelas histórias que escuta.

Ao ouvir dores alheias, ele entra em contato com a própria dor. O silêncio torna-se um tempo de elaboração psíquica, semelhante aos momentos regressivos que antecedem transformações importantes no processo analítico.

A cabeça do santo pode ser lida, simbolicamente, como um útero psíquico: um espaço de gestação subjetiva.

 Cabeça de Santo e a clínica contemporânea

O romance dialoga profundamente com temas centrais da clínica psicanalítica contemporânea, como:

  • sofrimento psíquico sem nome,

  • vazio existencial,

  • excesso de adaptação,

  • busca por sentido,

  • importância da escuta não invasiva.

A obra mostra que, muitas vezes, o que promove transformação não é a interpretação imediata, mas a sustentação de um espaço simbólico onde a experiência possa existir.

Considerações finais: uma leitura psicanalítica do silêncio

Ler Cabeça de Santo sob uma perspectiva psicanalítica é reconhecer que o romance fala menos de milagres e mais de subjetividade. Menos de respostas e mais de escuta.

Em uma cultura marcada pelo excesso de palavras, diagnósticos e soluções rápidas, a obra de Socorro Acioli nos lembra que escutar é um ato profundamente transformador — tanto na literatura quanto na clínica.

Este texto nasce de leituras realizadas pela autora e de sua escuta clínica, articulando literatura, psicanálise e experiência subjetiva..

 
 
 

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