Sofrer Sem Saber Por Quê: Estados Emocionais Difusos na Clínica Atual
- Silvana Souza Silva

- há 6 dias
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Para André Green, esse tipo de sofrimento está ligado ao que ele chamou de clínica do negativo: estados psíquicos marcados mais pela ausência, pelo esvaziamento e pela dificuldade de investimento do que por conflitos ruidosos. O sofrimento existe, mas carece de representação.
Essa compreensão dialoga diretamente com Wilfred Bion, ao afirmar que, quando a mente não consegue transformar vivências emocionais em pensamento, instala-se um estado de confusão interna. A angústia, nesse caso, não é reação a um evento externo, mas efeito da falha na capacidade de pensar a experiência.
Na clínica, esses estados aparecem com frequência em mulheres adultas, profissionais, cuidadoras, que sustentam múltiplas demandas sem espaço para elaborar perdas, frustrações ou limites. Como observa Maria Rita Kehl, vivemos em uma cultura que valoriza o desempenho contínuo e dificulta o contato com a falta, o tempo subjetivo e o sofrimento.
Quando não há linguagem para o que se sente, o sofrimento não desaparece — ele apenas se desloca. Pode surgir como cansaço crônico, sintomas corporais, apatia ou sensação de estranhamento em relação à própria vida.
Reconhecer esses estados emocionais difusos é um passo fundamental para o cuidado em saúde mental. A escuta clínica permite que aquilo que era apenas sensação informe encontre, pouco a pouco, uma forma psíquica possível.
Silvana Souza Silva - psicanalista




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