Mar Morto: Uma Leitura Psicanalítica do Amor, da Perda e do Destino
- Silvana Souza Silva

- há 5 dias
- 3 min de leitura

Mais do que uma história de marinheiros, o livro narra um modo específico de viver a vida sob o signo da instabilidade, da perda iminente e da entrega ao que não pode ser controlado. É justamente nesse ponto que a obra se torna especialmente fértil para uma leitura psicanalítica.
O mar como representação do inconsciente
No universo de Mar Morto, o mar não é apenas paisagem: ele é presença constante, imprevisível, ora acolhedora, ora devastadora. Do ponto de vista psíquico, o mar pode ser lido como metáfora do inconsciente — esse campo profundo onde forças não totalmente conhecidas regem afetos, medos e desejos.
Os personagens vivem em permanente contato com esse “outro” maior que eles, algo que não pode ser dominado, apenas respeitado ou temido. Assim também ocorre com a vida emocional: não se controla o afeto, o luto ou o amor; aprende-se, quando possível, a navegar por eles.
Amor e perda: vínculos sob ameaça constante
O amor entre Guma e Lívia é atravessado desde o início pela consciência da perda. Amar, nesse contexto, é sempre amar sob risco. A morte no mar não é exceção, mas possibilidade cotidiana.
Psicanaliticamente, isso nos remete à constituição de vínculos marcados pela ambivalência: o desejo de proximidade convive com o medo da perda. Não se trata de um amor idealizado, mas de um amor possível dentro de um mundo que não oferece garantias.
Essa dimensão aproxima a narrativa da experiência emocional de muitos sujeitos que vivem em contextos de instabilidade — sejam sociais, econômicos ou afetivos — nos quais o investimento no outro é sempre atravessado pela ameaça da ausência.
Destino, repetição e transmissão
Outro elemento central do romance é a ideia de destino. Os homens do mar parecem condenados a repetir o mesmo percurso, como se a história de seus pais e avós se reinscrevesse inevitavelmente em suas próprias vidas.
Sob uma lente psicanalítica, essa repetição pode ser pensada como transmissão psíquica e identificação inconsciente. Há algo que se herda para além da escolha consciente: modos de viver, de amar, de enfrentar o perigo e até de morrer.
Romper com essa cadeia exige mais do que vontade; exige simbolização, elaboração e, muitas vezes, um custo psíquico elevado.
Iemanjá e o feminino como continente
A presença de Iemanjá no romance não aparece como mero elemento folclórico. Ela ocupa um lugar simbólico fundamental: o do feminino que acolhe, envolve e também pode levar consigo.
Nesse sentido, Iemanjá pode ser lida como figura arcaica de contenção — aquela que recebe os mortos, mas também sustenta a vida. O feminino, aqui, não é idealizado, mas reconhecido em sua potência ambivalente: capaz de cuidar e de engolir, de proteger e de exigir.
Essa ambivalência ecoa profundamente nas experiências emocionais mais primitivas, onde amor e ameaça ainda não estão claramente separados.
Mar Morto e a escuta do indizível
Mar Morto é um romance onde pouco se explica e muito se sente. A dor, o medo e o amor não são excessivamente analisados pelos personagens; eles são vividos. Essa ausência de elaboração discursiva aproxima a narrativa daquilo que, na clínica, aparece como sofrimento que ainda não encontrou palavras.
Ler Mar Morto hoje é entrar em contato com uma experiência emocional coletiva, marcada pela precariedade da vida, pela força do vínculo e pela aceitação — nem sempre consciente — do que não pode ser evitado.
Talvez seja por isso que a obra continue atual: ela fala de afetos humanos fundamentais, daqueles que resistem ao tempo porque tocam camadas profundas da experiência psíquica.
Este texto nasce de leituras realizadas pela autora e de sua escuta clínica, articulando literatura, psicanálise e experiência subjetiva..




Comentários