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A morte lenta de uma vida correta: reflexões após ler A Morte de Ivan Ilitch

  • Foto do escritor: Silvana Souza Silva
    Silvana Souza Silva
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura
"Há mortes que acontecem no final da vida — e outras que surgem lentamente enquanto ainda estamos vivendo.”
"Há mortes que acontecem no final da vida — e outras que surgem lentamente enquanto ainda estamos vivendo.”


Publicada em 1886, a novela A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, permanece profundamente atual ao abordar o confronto humano com a finitude, a solidão emocional e a pergunta silenciosa sobre a autenticidade da própria existência.

Há livros que continuam trabalhando dentro de nós mesmo depois da leitura.Eles não oferecem respostas imediatas produzem deslocamentos.

A experiência de ler essa obra não provoca apenas reflexão sobre a morte, mas sobre a forma como a vida pode ser vivida sem presença, sustentada por expectativas sociais, desempenho e adequação.

Ivan Ilitch viveu corretamente.Construiu carreira, família e reconhecimento. Tudo parecia coerente, organizado e socialmente validado.

E, no entanto, diante da proximidade da morte, surge uma inquietação devastadora:a possibilidade de ter vivido de maneira adequada, mas não verdadeiramente sentida.

A finitude como ruptura

A doença não introduz apenas sofrimento físico ela desmonta a ilusão de continuidade e controle.

O que antes era suficiente — rotina, status, normalidade — torna-se incapaz de oferecer amparo emocional.

A morte não aparece apenas como evento biológico, mas como revelação psíquica.Ela traz à tona a diferença entre viver para corresponder e viver para experimentar.

Nesse momento emerge um tipo particular de luto: o luto pela vida não vivida.

A vida socialmente correta e o vazio silencioso

A trajetória de Ivan Ilitch dialoga intensamente com a contemporaneidade.

Vivemos em uma cultura que valoriza produtividade, coerência externa e estabilidade.Ser funcional frequentemente é confundido com estar vivo emocionalmente.

A obra revela a tensão entre vida organizada e vida sentida.

A adaptação excessiva pode produzir reconhecimento, mas não necessariamente significado.Quando a morte se aproxima, essa discrepância deixa de ser ignorável.

O sofrimento passa a ser menos o medo do fim e mais a percepção de um distanciamento de si.

A rapidez da vida e a lentidão do morrer

A narrativa expõe um contraste temporal delicado.

A vida cotidiana avança rapidamente: decisões práticas, compromissos, expectativas, papéis sociais.Tudo parece ocorrer em fluxo automático.

O morrer, ao contrário, desacelera o sujeito.

A lentidão imposta pela doença cria espaço para a introspecção e para o encontro com perguntas que a velocidade da vida havia silenciado.

O que não foi pensado retorna como inquietação.O que não foi sentido emerge como angústia.

A solidão diante da verdade

Um dos aspectos mais comoventes é a solidão emocional do protagonista.

As pessoas ao redor mantêm a formalidade e evitam reconhecer a realidade da morte.Essa negação social intensifica o sofrimento psíquico.

A presença simples e genuína de Guerássim revela o quanto o que alivia não é a eliminação da dor, mas a possibilidade de ser acompanhado na verdade.

Ser visto em sua vulnerabilidade torna o sofrimento mais humano.

A urgência que a finitude revela

A leitura do livro não desperta uma urgência impulsiva de viver mais experiências, mas uma urgência mais profunda: viver com maior contato com a própria verdade emocional.

A morte não cria essa urgência ela a ilumina.

A obra convida a perguntas incômodas e necessárias:

  • O que está sendo adiado em nome da adaptação?

  • Quais afetos permanecem evitados para manter estabilidade?

  • Quantas escolhas são guiadas pelo pertencimento e não pelo sentido?

  • O que permanece não vivido enquanto a vida parece estar organizada?

Pensar a morte, paradoxalmente, pode ampliar a experiência de viver.

Mensagem que ficou para mim após a leitura.

A Morte de Ivan Ilitch não é apenas um relato sobre morrer.É uma narrativa sobre o encontro tardio com a verdade da própria existência.

A finitude não surge como punição, mas como possibilidade de desvelamento.

Talvez a pergunta que permanece após a leitura não seja sobre o fim da vida, mas sobre a presença com que habitamos o tempo que ainda temos.

Refletir sobre a morte pode ser, silenciosamente, uma das formas mais profundas de retornar à vida.

Silvana Souza Silva - Psicanalista

 
 
 

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