Sirât e a experiência do não saber: quando o cinema nos confronta com o real
- Silvana Souza Silva

- 2 de mar.
- 2 min de leitura

Um filme que termina e nós permanecemos na cadeira. Algo ainda está acontecendo por dentro.
Assistir a Sirât não é apenas acompanhar uma história. É atravessar uma experiência.
Há filmes que se encerram e imediatamente retomamos o movimento: pegamos o celular, comentamos algo trivial, seguimos o fluxo do dia. Mas Sirât não permite essa transição rápida. Ele termina e permanecemos imóveis. Como se o corpo soubesse que algo ainda está sendo processado.
Essa imobilidade não é passividade. É elaboração.
O impacto da estranheza
O filme constrói uma narrativa que não oferece conforto. Não há explicações fáceis, nem um fechamento clássico que organize a angústia. Somos conduzidos por uma travessia árida, física e emocional, onde o inesperado rompe qualquer sensação de controle.
Do ponto de vista psicanalítico, essa experiência toca o que Freud chamou de estranho aquilo que nos desestabiliza porque rompe nossa expectativa de familiaridade. A história não se encaixa no roteiro que imaginamos. E, quando isso acontece, algo em nós também se desorganiza.
Somos surpreendidos.
E a surpresa, muitas vezes, é uma pequena ferida narcísica: acreditávamos saber. Não sabíamos.
O deserto como metáfora da vida
O cenário árido do filme não é apenas geográfico. Ele opera como metáfora existencial.
O deserto é vasto, silencioso, imprevisível.Não responde às nossas demandas.Não negocia com nossas expectativas.
Assim também é a vida.
Vivemos sustentados por projetos, planos e suposições de continuidade. Mas o real pode interromper qualquer narrativa que construímos. E quando isso acontece, somos convocados a lidar com o que não estava previsto.
Sirât nos coloca diante dessa condição humana fundamental: a impossibilidade de controlar o curso das coisas.
O não saber como experiência transformadora
Talvez o ponto mais potente do filme seja este: ele nos força a suportar o não saber.
Em uma cultura que exige respostas rápidas, soluções imediatas e explicações constantes, permanecer em suspensão é desconfortável. Queremos entender. Queremos fechar. Queremos concluir.
Mas há experiências que não se resolvem no plano racional.
Ao não oferecer respostas prontas, o filme nos devolve à nossa própria vulnerabilidade. E isso pode ser profundamente inquietante — mas também profundamente verdadeiro.
Sustentar o não saber é um exercício de maturidade psíquica.É aceitar que nem tudo se organiza segundo nossos desejos.É reconhecer que o sentido, muitas vezes, nasce depois e não durante.
O que permanece depois do fim
Quando um filme termina e não nos levantamos da cadeira, é porque algo foi tocado em um nível mais profundo do que o intelectual.
Talvez tenha sido a experiência do desamparo.Talvez o reconhecimento da fragilidade dos vínculos.Talvez o confronto com o imprevisível.
Ou talvez tenha sido simplesmente o encontro com o real sem anestesia.
Sirât não entrega uma lição moral. Ele oferece uma travessia. E nos lembra que viver é, muitas vezes, caminhar por territórios onde não sabemos o que virá.
E ainda assim, seguimos.
Texto reflexivo de autoria de Silvana Souza psicanalista




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